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Sobre Franklin Joaquim Cascaes

Nascido em 16 de outubro de 1908, em Itaguaçú, bairro hoje pertencente ao município de Florianópolis, Santa Catarina. Na casa em que vivia toda a produção era realizada na propriedade, com o trabalho no engenho de açúcar, de farinha de mandioca além da charqueada. Dentre doze irmãos, foi o filho mais velho, educado para exercer toda e qualquer atividade necessária ao desempenho da subsistência, entre elas, a confecção de balaios, cordas de cipó, cercas de bambu e tarrafas.

Franklin Joaquim Cascaes manifestou desde cedo interesse pelas histórias e eventos que diziam respeito ao processo de ocupação e colonização do litoral catarinense, mais especificamente da Ilha de Santa Catarina e ao modo de vida local.

Transformou, através de suas habilidosas mãos de artista, esse universo cultural num conjunto de desenhos, manuscritos e esculturas, criando ao longo de sua vida um acervo documental sobre a cultura popular do litoral catarinense. Foi descoberto pelo professor Cid Rocha Amaral, diretor da Escola de Aprendizes e Artífices de SC, ainda na adolescência, esculpindo na praia de Itaguaçú. Assim teve inicio sua formação profissional. Em 1941 foi admitido como professor da Escola Industrial de Florianópolis.

Salientamos que atualmente qualquer reflexão acerca das comunidades litorâneas catarinenses, é necessariamente atravessada pela obra de Franklin Joaquim Cascaes. Sua “obra não só nos informa do passado da cultura ilhoa, mas também tem o presente, importância política fundamental, pois são as reflexões e as mudanças contemporâneas que necessitam ser observadas, entendidas e atualizadas como linguagem política necessária para, futuramente, termos consciência do que queremos como cidadãos de Florianópolis do terceiro milênio”.

A obra de Cascaes hoje se encontra no Museu Universitário Professor Oswaldo Rodrigues Cabral/UFSC. Sua coleção leva o nome de “Professora Elizabeth Pavan Cascaes”, em homenagem a sua esposa. É composta de esculturas em argila crua e gesso, sendo os adereços confeccionados em tecido, madeira, papel, metais, desenhos a bico de pena e grafite, e manuscritos.

A representação destas imagens pelo artista se deu através de formas e temáticas diferenciadas, que no seu conjunto narram uma trajetória. Neste caso, a do homem do litoral catarinense e das comunidades pesqueiras da ilha de Santa Catarina, num espaço de tempo de quarenta anos, da década de 1940 a década de 1980 do século passado. É a arte como registro de um acontecimento que se preservada, fica gravada na história.

A coleção escultórica é dividida em 42 conjuntos temáticos. São esculturas de pequeno porte representando figuras antropomorfas, zoomorfas, ferramentas, instrumentos, utensílios, etc. Estas peças foram elaboradas com matéria-prima de origem orgânica (madeira e outras fibras têxteis celulósicas e protéicas) e inorgânica (metais, pedras sedimentárias - argila e gesso). Aos conjuntos estão associadas cenografias, como aquelas que reproduzem em maquetes, engenhos de fabricação da farinha de mandioca, rancho de pescadores, casa típica açoriana, entre outras, para as quais foram empregadas matérias-prima de distintas origens.

Os manuscritos produzidos por Franklin Joaquim Cascaes compõem-se de 124 cadernos escolares pequenos, 22 cadernos grandes e 476 manuscritos em folhas avulsas e/ou agrupadas numa quantidade máxima de 15 páginas, escritos à caneta esferográfica, caneta tinteiro e grafite. Também fazem parte desta coleção 114 documentos, entre os quais estão diários de classe, cadernos de recortes de jornais, provas de alunos, cadernos de aula, cadernos de visitas a exposições, cadernos de apontamentos de Elisabeth Pavan Cascaes.

A produção de desenhos é extremamente vasta, composta por 1439 desenhos tombados em 941 suportes em papel, e em seus desenhos o artista abordou temas dos mais variados. Os desenhos despertam uma variedade de discussões e elementos. São trabalhos sobre a pesca, cultivos da mandioca, festas profanas e religiosas, arquitetura, bruxaria, boitatás, lobisomens, cotidiano, vendedores, mitologia marinha, processos políticos, especulação imobiliária. E com destaque, ele nos mostrou artisticamente que as antigas relações culturais herdadas estavam desaparecendo através das intensas transformações urbanas.

Franklin Joaquim Cascaes tentou expressar da melhor forma possível o que viu e o que sentiu enquanto trabalhava. Percebeu as transformações ameaçando o cotidiano e o conhecimento popular dos habitantes da ilha, que corriam o risco de não serem lembradas pelas futuras gerações.

Os primeiros registros sobre atividade artística de Franklin Cascaes são de 1946, “Comecei a fazer este trabalho em 1946, quando tinha 38 anos. Comecei com dificuldade, porque era professor”. Até meados dos anos 1980, Franklin Cascaes desenvolveu inúmeros trabalhos de coleta de dados, utilizando diferentes técnicas e diversificando a temática. De formas distintas, Cascaes procurou registrar a cultura que se transformava.

Apesar de a maioria das pessoas associarem o nome de Franklin Cascaes a uma produção apenas bruxólica, mágica e lúdica, grande parte do seu trabalho não está ligado a estes temas. É constante a produção acadêmica, teatral e audiovisual sobre o artista e sua obra e a diversidade nela encontrada. Pode-se mencionar a peça de teatro de Gelci José Coelho (Peninha) o “Ataque Bruxólico”, escrito na década de 1970, mas que não chegou a ser encenada. Em 1984 um grupo teatral, apoiado pela Fundação Catarinense de Cultura, estréia a peça “Cascaes”, dirigida por Olga Romero. E “Hobarcú” de Sandra Alves, que traz algumas histórias da tradição oral da Ilha de Santa Catarina, repletas de mágicas, encantamentos e bruxas, cantadas, tocadas e iluminadas por três artistas mulheres que homenageiam o imaginário do folclore catarinense. Há ainda a minissérie apresentada na TV Manchete “Ilha das Bruxas”, projeto da jornalista Bebel Orofino, inspirada na obra de Cascaes. Também de Bebel Orofino podemos citar o vídeo “Santo de Casa”, um documentário sobre a vida e obra de Franklin Cascaes, e os audiovisuais “Balanço Bruxólico” e “Franklin Cascaes uma cultura em transe”.

Quem conhece seu acervo, sejam eles os cadernos, as esculturas ou os desenhos sabe que a amplitude de seu legado oferecerá sempre algo novo para pesquisas e discussões. Franklin Cascaes acompanhou criticamente o processo de modernização que ocorria nas comunidades, e isto está apontado e registrado em sua obra. O tempo e o espaço e as circunstâncias são transformadas, modificando o cotidiano da população local. O que incomodava Cascaes são as ausências, as transformações, a mudança que ele percebe no seu universo antes pacato e intocado, para isso precisou buscar uma forma de memorizar o passado que estava se perdendo.

Franklin Joaquim Cascaes desenvolveu uma ampla capacidade para absorver, captar e interpretar o que lhe passava diante dos olhos e o que lhe chegava aos ouvidos. É admirável a insistência com que Cascaes lutou para conscientizar, conservar e divulgar o patrimônio histórico e cultural ilhéu constituído pelas crenças e costumes. Criou até o ano de 1982 um grandioso acervo documental, base para uma infinidade de pesquisas a quem se interessar pelo universo da cultura popular ilhoa.

Enfim, é uma obra diversa, multi-facética, que pode e deve ser revelada aos brasileiros e nada melhor que ser conhecida através da divulgação através do selo postal. Sua obra nos faz rememorar, relembrar o passado, e como o próprio artista falava: “uma nação que não conhece a raiz da sua história, está muito aquém daquilo que ela devia ter como sua cultura”.

Aline Carmes Kruger
Historiadora

Bebel Schaeffer. Florianópolis: Departamento de Comunicação e Expressão - Curso de Jornalismo, 1987. 1 videocassete (15 min): son., color. Umatic.

Maria Cristina Josizato. Florianópolis: Departamento de Comunicação e Expressão - Curso de Jornalismo, 1989. 1 videocassete (20 min): son., color. Umatic.

Vídeo documentário, produção Tatiana Baltar, Cleusa Teresinha Ramos e Joel Cordeiro. Lapis - Laboratório de Pesquisa em Imagem e Som, 1997, UFSC.

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